Estudo aponta o que funciona para melhorar o ensino de matemática nas escolas públicas
Pesquisa do Iede analisou sete redes municipais com bons resultados mesmo entre alunos de baixa renda. Rotina de aula, materiais concretos e avaliações próprias estão entre as práticas em comum
Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (7) reuniu as práticas de sete redes municipais de ensino que conseguem bons resultados em matemática, mesmo entre alunos de baixo nível socioeconômico. O estudo é do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a B3 Social e em diálogo com a Fundação Lemann, e foi divulgado com exclusividade pelo portal g1.
As redes analisadas são as de Casinhas (PE), Joaquim Távora (PR), Ji-Paraná (RO), Miracema (RJ), Junqueirópolis (SP) e Anicuns (GO), além de Cruz (CE), onde foi feito o piloto. Segundo o diretor-fundador do Iede, Ernesto Martins Faria, a escolha considerou redes com resultados bons e constantes ao longo do tempo.
O tamanho do problema
Os dados mostram a dificuldade histórica do país na disciplina:
No 5º ano, a proporção de alunos com aprendizado adequado em matemática subiu de 44% em 2023 para 51% em 2025, segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Ainda assim, cerca de metade não aprende o esperado.
No estudo internacional TIMSS de 2023, o Brasil teve média de 400 pontos, 103 a menos que a média dos países desenvolvidos. Ficou à frente apenas do Kuwait e da África do Sul.
No Pisa, o país quase não avançou entre 2015 e 2025. Sete em cada dez alunos de 15 anos não sabem fazer contas simples.
O que as redes fazem
O estudo trata dos anos iniciais do ensino fundamental e lista práticas comuns às sete cidades:
Rotina de aula definida: revisão do conteúdo anterior, explicação, exemplos resolvidos no quadro, exercícios e correção. O professor circula pela sala para tirar dúvidas.
Treino de cálculo: momentos dedicados à fluência, ou seja, ao raciocínio rápido nas contas.
Explicar o raciocínio: os alunos são estimulados a dizer como chegaram à resposta, e não apenas a acertá-la. O erro é usado para entender como a criança está pensando.
Materiais concretos: ábacos, jogos, relógios didáticos, dobraduras, sólidos geométricos e recicláveis.
Salas com matemática à vista: retas numéricas, tabuadas, calendários, formas geométricas, moedas e cédulas, usados durante as aulas.
Avaliações próprias: provas da rede, alinhadas ao Saeb, para mapear dificuldades, ajustar as aulas e organizar turmas de reforço.
Gestão próxima: equipes das secretarias visitam as escolas com frequência, e a coordenação pedagógica faz a ponte com a sala de aula.
Formação e inclusão: encontros periódicos de professores dentro da jornada de trabalho, parcerias com universidades e profissionais de apoio para alunos com deficiência.
Gosto pela disciplina: olimpíadas, desafios, aulas de educação financeira e feiras abertas às famílias.
Só funciona em conjunto
Os pesquisadores afirmam que as ações precisam estar articuladas. A professora Maria Helena Bravo, gerente de pesquisas do Iede, dá o exemplo do jogo matemático: ele não gera aprendizado só por estar disponível. Precisa estar ligado a um objetivo, com o professor fazendo perguntas e pedindo que os alunos expliquem e comparem suas estratégias.
O estudo também alerta que rotina e treino não podem se resumir à memorização. As aulas devem incluir investigação e resolução de problemas.
Dificuldades apontadas pelas próprias redes
Falta de profissionais, em especial de especialistas em matemática para apoiar os professores dos anos iniciais
Secretarias sobrecarregadas e descontinuidade de projetos nas trocas de governo
A ideia equivocada de que basta treinar as crianças para as provas
Formações sobre temas genéricos, sem aprofundamento na disciplina
Materiais que viram decoração da sala, sem uso pedagógico
Salas pequenas e quentes, que atrapalham atividades em grupo
Adaptações para alunos com deficiência feitas de última hora
Com informações do g1. Estudo: Iede.